
Com os eventos climáticos cada vez mais extremos e recorrentes, o ato de acompanhar o clima não se limita mais somente a assistir à previsão do tempo nos telejornais. Hoje, ter acesso a esses dados é mais do que poder, é a possibilidade de monitorar as condições climáticas, prevenir catástrofes e educar a população. É a partir deste cenário que nasce o Hexa Clima, uma estação meteorológica modular, portátil e de baixo custo desenvolvida no interior de São Paulo, na cidade de São Carlos, popularmente conhecida como capital da tecnologia.
A iniciativa tem o objetivo de democratizar o acesso ao monitoramento climático e fortalecer a conscientização ambiental. Mais do que uma estação meteorológica tradicional, o Hexa Clima foi projetado como uma ferramenta educacional e tecnológica capaz de acompanhar condições climáticas em tempo real e em diferentes cenários.
A ideia nasceu quase que por acaso. Inicialmente e seguindo uma tendência de mercado, os esforços da BDN Tecnologia, empresa por trás do iniciativa, era desenvolver um kit de sensores integrado à internet – a chamada Internet das Coisas (IoT). Porém, ao tentar vender o projeto, Gustavo Morceli, fundador e CEO da startup, usava como exemplo de aplicação a construção de uma miniestação meteorológica a partir desses sensores.
“Quando começamos a apresentar a ideia aos possíveis clientes, surgiu o interesse no produto já como uma estação meteorológica”, relata Morceli. A ideia veio ao mundo ao mesmo tempo em que as mudanças climáticas tomavam conta do debate público. “Nós já tínhamos sensores modernos, mais baratos e com melhor performance em comparação com outras alternativas do mercado. Foi aí que enxergamos a possibilidade”, complementa o idealizador.
A partir daí, o Hexa Clima cruza as fronteiras escolares. A tecnologia foi apresentada e validada por órgãos como a Defesa Civil e estudiosos da área do meio ambiente e, após aprovação, começou a corrida para aprimorar o produto, adquirindo certificações do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
Uma solução em meio a tragédia
Durante o desenvolvimento do Hexa Clima, ainda em sua aplicação em campo, houve o primeiro grande teste do produto, longe de qualquer condição controlada. Era março de 2024 e São Carlos passava por um período de chuvas intensas. Em uma dessas, choveu aproximadamente 80 milímetros em um só dia, metade da média esperada para o mês. A tempestade provocou alagamentos e transtornos por toda a cidade.
No momento, o Hexa Clima tinha apenas uma unidade para testes instalada. Logo após o temporal, Morceli e equipe checaram os dados coletados pela estação e notaram uma alteração não convencional nos índices de pressão atmosférica 15 minutos antes da chuva cair.
As informações foram levadas ao secretário de segurança pública de São Carlos, que afirmou que ter acesso a esses dados e um possível alerta com 15 minutos de antecedência otimizaria e muito o trabalho da Defesa Civil e da Guarda Municipal. Para desenvolver esse mecanismo de predição, é necessário aplicar técnicas de Machine Learning (aprendizado de máquina) ao Hexa Clima, no qual uma inteligência artificial seria alimentada pelos dados coletados pelos sensores.
Então, começou a missão de cobrir toda a cidade de São Carlos com as estações Hexa Clima para que esses dados alimentem a ferramenta de inteligência artificial. Hoje, já são cerca de 40 estações e a estimativa é que chegue a 300 até o fim de 2026, tornando São Carlos a cidade com maior rede de estações de medição per capita no mundo. “Ao todo, mundialmente, eu mapeei menos de 10 cidades com um modelo semelhante ao nosso”, pontua Morceli.
O sistema conta com sensores que realizam medições e coletam dados como temperatura, umidade relativa do ar, pressão atmosférica, velocidade e direção do vento, luminosidade, índice de radiação ultravioleta, volume de chuva, qualidade do ar, compostos voláteis e eCO₂. Essas informações são levadas minuto a minuto para uma plataforma que as organiza em um dashboard, com informações atualizadas e que permitem a visualização em gráficos e o acesso ao histórico de medições.
Sobre a visualização, Morceli complementa que ela foi pensada para ser extremamente intuitiva e acessível. “O Hexa Clima capta dados de medida ultravioleta, por exemplo, em watts por metro quadrado (W/m²), só que no dashboard ela chega como um indicador de risco orientado por cores e legenda, para o usuário final ter uma fácil assimilação”, complementa.

Este acesso às informações contribui para a prevenção de desastres naturais e a geração de alertas climáticos. A partir do monitoramento contínuo, a plataforma permite identificar variações bruscas nas condições ambientais que podem representar riscos à saúde ou à segurança da população, auxiliando na criação de comunidades mais resilientes.
Além da predição meteorológica, o projeto também busca utilizar os dados climáticos para outras frentes. Uma parceria com EMBRAPII/SEBRAE, liderada pelo docente Luis Gustavo Nonato, do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC), da USP, em São Carlos, busca utilizar os dados coletados pelo Hexa Clima para desenvolver uma IA capaz de prever a incidência de casos de dengue, com uma antecedência de 7 a 10 dias. Os primeiros testes ocorrerão já em fevereiro.
Fiel às origens
Um dos grandes trunfos do Hexa Clima é a versatilidade que o produto proporciona para diversos contextos que se beneficiam do monitoramento do clima. A iniciativa já está sendo ofertada para prefeituras e cidades inteligentes. Segundo Morceli, o projeto planeja, a partir do segundo semestre, atender empresas do agronegócio.
Porém, o pilar que motivou a criação da BDN e de toda sua linha de kits é a aplicação pedagógica. A ideia original foi mantida e o Hexa Clima também será usado para ensino. “Para nós, nos interessa que a tecnologia seja utilizada como meio e não como fim, até porque nem todo aluno tem vocação e interesse em soldar ou programar”, afirma o fundador. Segundo ele, a intenção é utilizar a coleta de dados, especialmente próximos da realidade do aluno, para que sejam aproveitados em matérias como ciências, matemática, física, biologia, ou geografia.
O Hexa Clima atualmente tem parceria com uma rede de ensino no Rio de Janeiro. Para Morceli, é ideal que os alunos tenham essas miniestações em mãos para que possam observar esses dados ambientais, estarem alertas e futuramente saibam ler e interpretar essas informações.

